Entusiasmo: a potência afirmativa de Viver

Quando passei pelo Grupo Ato em 2012 ouvi falar de Nina Veiga e suas bonecas. Mais recentemente, me conectei a ela para esperançar dias melhores para nosso país, me fortalecendo com as citações de “Steiner para turbinar a confiança na Vida”, como ela dizia a cada bom dia em sua rede social. Foi assim que também conheci o Ativismo Delicado.

Ao compor as participações para as entrevistas dos módulos do Jardim em Flor sonhei em ter sua voz aqui. Ela amorosamente acolheu e escolheu falar sobre Entusiasmo!

Bora alinhar o pensar, sentir e o agir com a professora Nina Veiga!

Aprenda a fazer a bonecas Waldorf com Nina Veiga

1. Conte um pouquinho sobre Nina Veiga e sua trajetória na Antroposofia.

Eu comecei com a Antroposofia pela Medicina em 1983. Passei alguns anos lendo e sendo tratada por uma médica antroposófica. Em 1992 me juntei a fundadores de uma escola rural e nós adotamos a Pedagogia Waldorf, foi quando comecei a minha aproximação mais direta com essa pedagogia. Eu já fazia bonecas, eu tinha um ateliê, e no projeto da escola as bonecas entrariam como geração de renda para as mães, porque era uma escola rural para crianças carentes.

 

Eu fui para o Seminário, lá descobri a Euritmia e fiz a formação. Me formei também em Arte e Ciência e em Pedagogia Terapêutica, seguindo com a vida acadêmica, o mestrado e doutorado, sempre produzindo um pensamento que eu chamo hoje de Antroposofia da Imanência e Educação Steineriana, para me descolar um pouco do aspecto dogmático ou religioso que infelizmente muitas comunidades antroposóficas e de Pedagogia Waldorf adquiriram nesses anos.

2. O que é Entusiasmo para você?

Tem aquela definição clássica de Entusiasmo, “o theo dentro,” o Deus dentro, para mim entusiasmo é a potência de viver, é essa potência afirmativa de viver.

3. Onde nasce o entusiasmo? Como mantê-lo e fazê-lo crescer em nós?

Eu fiquei pensando nessa pergunta… Eu acho que o entusiasmo é um efeito. Eu fiquei pensando muito nisso: o entusiasmo como o efeito de um alinhamento ético, estético e político que a gente produz. Quando você consegue produzir no mundo uma ação a partir do seu princípio ético, é o entusiasmo alinhando essa ação.

A manutenção do próprio entusiasmo é a própria arte de viver. Como você compõe isso com seus princípios éticos, atuando no mundo a partir deles, produzindo uma estética da existência, uma política da existência. A força para isso eu acho que é o entusiasmo.

a potência de viver nos mínimos detalhes

Viver com essa força dentro de si nasce do esforço COTIDIANO, de fazer o alinhamento ético, estético e político. Quando você faz isso você inspira outras pessoas.

4. Como o entusiasmo se relaciona às disposições anímicas “pensar, sentir, querer”, da Pedagogia Waldorf?

Eu acho que justamente o entusiasmo tem a ver como esse alinhamento do pensar, do sentir, e do querer. Ou seja, o pensar o alinhamento ético, o sentir o alinhamento estético, e o querer, político. O querer é nossa ação no mundo. O sentir é como você age, e o pensar é aquilo que te move espiritualmente. O entusiasmo como essa força, essa potência que permite esse alinhamento, eu acho que é dessa maneira que se relacionam…

É claro que a gente está trazendo aqui uma perspectiva do entusiasmo como vontade de potência, como força para esse alinhamento, isso não está baseado em nenhuma teoria, é uma interpretação.

5. É possível, por meio das artes-manuais, acessar nossa chama interior? Ou elas são a expressão dessa própria força? Como as artes manuais tecem uma viva mais viva?

As Artes-Manuais, nessa perspectiva que estamos instalando aqui é um dispositivo que pode colaborar sim para esse alinhamento ético, estético e político; um dispositivo que pode ser um palco para a realização desse alinhamento. As Artes-Manuais podem funcionar tanto de modo expressivo como ser usadas de maneira a produzir uma consistência, uma regularidade, um contorno para a existência, porque nem tudo o que a gente faz com artes manuais é expressivo, a expressão está junto, mas em alguns momentos isso não é o mais importante: aquela regularidade, aquele fazer contínuo, a utilidade  (aquilo que pode ser usado no cotidiano), tudo isso são forças sanadoras de muitos processos, como a exaustão que a gente vive.

Contornando a existência com Artes-manuais para uma vida mais viva!

6. Gostaria que falasse um pouco sobre Ativismo Delicado e como o entusiasmo nos impulsiona a movimentos de transformação do mundo, da vida, por uma via pacífica. Quais os paralelos entre um revolução “violenta” e uma revolução pelo “afeto”?

O Ativismo Delicado é um modo político de estar no mundo, ele faz parte desse alinhamento ético, estético e político. Como é essa ação no mundo através do Ativismo Delicado? Ele vem do Allan Kaplan e Sue Davidof, são um casal, e o significado do Ativismo Delicado não é que ele não seja violento ou agressivo, não é isso que está em questão, ele tem a ver com esse alinhamento, tem a ver justamente com essa força que chamamos aqui de entusiasmo que, enquanto você faz sua ação política no mundo você se transforma. Olha que paradoxal: quando você age no mundo a partir da sua ética, a partir da sua estética, produzindo essa política no mundo, ao fazer isso você tem que se transformar o tempo todo, tem que crescer, tem que mudar, porque o mundo muda, então você tenta fazer uma composição com ele, é nesse sentido que o Ativismo Delicado age no mundo através da transformação de cada um.

Quando se fala de transformações suaves, de sutis revoluções, gosto de usar um conceito a partir do Deleuze e Guattari, que é o devir revolucionário. Porque tem a revolução, essa coisa grande, explosiva, datada, mas, mais do que a revolução, a perspectiva que estamos usando aqui desse alinhamento ético, estético e político do Ativismo Delicado requer um devir revolucionário, ou seja, a vontade de sempre fazer a manutenção de uma transformação no mundo, uma transformação ético-estético-política, na qual você e atua e se transforma junto.

7. Como florescer o entusiasmo pelo “cuidado de si” e a “autoeducação” e como isso transborda no mundo?

O próprio cuidado de si produz o entusiasmo, porque é tudo uma coisa! Fazer a manutenção desse alinhamento ético, estético e político requer um cuidado de si. Vou pegar um exemplo bem simples, “vou fazer uma coisa, faço outra”, tem até uma expressão grega antiga, “penso uma coisa e faço outra”, então é nesse lugar de alinhamento, aquilo que eu faço, aquilo que eu penso, as crianças nos cobram muito isso: “mas você disse isso e está fazendo outra coisa”… esse alinhamento entre aquilo que a gente diz, faz e pensa é o próprio cuidado, a gente precisa ter cuidado e não é uma coisa simples, isso é um exercício existencial, quando você consegue pensar, fazer, agir, isso cria uma potência alegre! A própria produção do cuidado produz entusiasmo!

O cuidado no cotidiano de Nina Veiga. Acervo pessoal

Isso não quer dizer que a gente deva ficar só no próprio umbigo cuidando de si mesmo, mas que, ao cuidar do outro, ao cuidar do mundo, ao fazer ações efetivas para transformação da realidade, que não é boa, a gente está se transformando também. Isso não significa ficar ensimesmado, mas atuar no mundo a partir da sua própria dignidade, para tornar o mundo digno para todos.

8. Qual vontade move Nina Veiga hoje?

Eu sou muito entusiasmada! O que me move é fazer do conhecimento junto às Artes-manuais, essas com hífen, – eu produzi também esse conceito, as artes-manuais pensando nos modos de existência junto a elas, um afeto potente. Eu costumo dizer assim: fazer do conhecimento o mais potente dos afetos, produzir o território existencial desse conhecimento… É isso que me move de tal maneira que a força que existe num simples bordadinho, num simples crochê de uso doméstico, possa ser vista! 

fazendo do conhecimento o mais potente dos afetos. Acervo pessoal

A artemanualista e terapeuta Nina Veiga é doutora em educação, escritora e conferencista, com oficinas e workshops ministrados no Brasil e em diversos outros países. É idealizadora e coordenadora das Pós-graduações em Artes-Manuais para a Educação, Artes-Manuais para Terapias, Artes-Manuais para o Brincar e o Currículo dos Trabalhos Manuais na Educação Steineriana. Suas oficinas associam o saber teórico-conceitual às artes-manuais como modo de existir e à escrita como produção de si e do mundo. Mestre em Cultura e Linguagem e psicopedagoga artística, há trinta anos é ativista pela infância plena, através de oficinas que levam em conta a imagem ampliada do ser humano e as necessidades da criança contemporânea. Valoriza o trabalho das mãos em contato com materiais e concepções que possibilitem a composição de uma ética, de uma estética e uma política que promova a vida de qualidade.